Fui acordado por volta das 6 horas e 5 minutos da manhã. Hoje é quinta-feira, o tal dia 15 de Maio. Consegui dormir 4 horas no sofá da messe de oficiais do barco patrulha Cacine da Marinha Portuguesa. A palavra de ordem era "já se avistam as Selvagens. Estamos a uma hora da rendição da Selvagem Pequena".
Com o Médico e Ornitólogo Francis Zino, cheguei à Selvagem Pequena, que não tinha vigilância desde Outubro de 2007. A sensação foi de chegar a uma ilha deserta, onde reinam os animais. Uma experiência que só alguns sortudos têm à face da terra. Estive lá cerca de 4 horas, enquanto durou a rendição. Na ilha abundam milhares de ninhos de Calca-mares, uma ave marinha de pequeno porte que constitui, nas Ilhas Selvagens, a sua maior colónia mundial.
O almoço foi a bordo do barco patrulha da Marinha. A viagem entre uma ilha e a outra dura cerca de 1 hora. Tempo suficiente para uma língua de vaca estufada como mandam as regras da boa cozinha da Marinha Portuguesa. O tempo de aproximação à Selvagem Grande fez-me lembrar que há sonhos que são possíveis realizar. A Selvagem Grande é o lugar onde passei 27 dias a fazer o registo possível da biodiversidade terrestre daquelas paragens.
A rendição dura cerca de 1 hora e 30 minutos, e é feita, tal como na Selvagem Pequena, em botes do Parque Natural da Madeira e da Marinha. Fiz uma primeira abordagem à ilha com Francis Zino. Embora com pouco tempo, conseguimos passar pelos ninhos de Cagarras na zona da Ataláia e nos muros do planalto. Francis Zino voltou ao Funchal com o coração nas mãos. Deixar para trás este pedaço de terra, que frequenta há quase 50 anos, não é tarefa fácil.
Fiquei a ver o Cacine a desaparecer no horizonte. Esta imagem substituiu a que tinha na minha memória de infância. Agora sou eu o homem que fica na ilha deserta para viver com os animais. Durante 27 dias cumpri uma das maiores aventuras da minha vida. No dia 10 de Junho, estava a caminho da Ilha da Madeira, para reintegrar o outro mundo. O tal mundo que não passa pelas Ilhas Selvagens.
por: Paulo Henrique SilvaDescobrir!
Paulo Henrique Silva conhece os cantos das ilhas e os sons dos cagarros.
Luciano Barcelos persegue os sabores, os vinhos subtis. Do Pico, aos Biscoitos.
Ambos fazem este blog por andarem fartos da cidade.