2010-03-14 03:38:47

13MAR2010 - 54º Dia - Mau tempo no caminho!

Desembarcámos os pilotos à saída do Rio de la Plata no dia 10 às 05:00 após 15 horas de águas restritas e canais estreitos em que passámos, fomos passados e nos cruzámos com vários navios. O de menor calado tinha que sair sempre do canal que era sinalizado por um par de bóias a cada quilómetro.

O encalhe do Esmeralda no dia da entrada, poucas milhas à nossa proa, que se deu por facilitismo do piloto, trazia-nos mais atentos e menos condescendentes. De tal forma que, quando num dos cruzamentos saímos do canal e o piloto nos quis levar para uma zona fora da linha limite de águas navegáveis que tínhamos definido, entrámos em conflito. Tínhamos combinado aquele plano de navegação à largada e não havia justificação para deixar de o cumprir. Nem os 30 anos de experiência do canal que apregoava!

Navegámos a motor e vela em direcção a Mar del Plata onde faríamos uma passagem próxima por solicitação da Marinha Argentina. Mas ao fim do dia o vento rodou para a proa e passámos de 7 para 2 nós. Bordejámos para ganhar velocidade e na tarde seguinte, com vento e mar mais calmos, fizemos a nossa passagem, aproveitando para descarregar o máximo de informação meteorológica da WEB e carregar algumas fotos no Blog através da placa 3G local - muito mais em conta que o satélite.

Aproxima-se uma depressão muito cavada e seria insensato apanhá-la em mar aberto. Temos que passar o dia 14 abrigados do mar e ventos fortes que ai vêm. Nas cartas e roteiros localizámos três possibilidades:

- Baía Blanca, muito perto de nós, oferecendo boa protecção mas demasiado longe do nosso próximo compromisso que é o desfile na Isla de los Estados antes de rumar a Ushuaia;

- Golfo San Matías, muito espaçoso e com protecção razoável;

- Golfo Nuevo, com espaço e protecção suficientes, muito longe de nós mas mais próximo do destino, facilitando o cumprimento do ETA (estimated time of arrival) à Isla de los Estados.

A primeira opção foi posta de parte por obrigar o embarque de piloto e ser estreita. Apontámos para a Península Valdês que separa os dois golfos, com o objectivo óptimo de chegar ao Golfo Nuevo tendo a alternativa fácil de ficar no de San Matías que oferece menor protecção.

O dia de ontem foi passado com boas condições de navegação e aproveitámos para realizar um importante exercício de Limitação de Avarias (LA): incêndio na cozinha, não controlado, com passagem a postos de emergência. Há que treinar as acções e recordar procedimentos. Se algo do género se passasse a bordo, os bombeiros seríamos nós e não há para onde fugir. Foram três horas com empenhamento total da guarnição e em estilo de treino avaliado para que haja resultados. Começa-se com um alarme de incêndio na cozinha a que ocorre o Ronda LA que verifica haver fogo e não o consegue resolver com o seu extintor. Dá-se o alarme no sino. Corta-se a ventilação e a electricidade! Segue-se uma equipa composta por dois elementos do grupo que está de quarto, já munidos de equipamentos de respiração autónoma e extintores ou mangueiras, são rendidos pela brigada de incêndios, equipada a rigor e composta por 4 elementos. No entanto também não conseguem debelar o sinistro. Fecha-se o compartimento, arrefecem-se as anteparas e pavimentos contíguos e dispara-se o sistema de extinção local que existe na cozinha e espaços de máquinas. Depois é aguardar o arrefecimento do compartimento e preparar a reentrada de um grupo perfeitamente preparado e informado da tarefa a desempenhar. Estes são briefados e motivados para o combate final e entram sem pressas, cerca de duas horas após o sinistro. O almoço foram costeletas de porco e não estava estorricado!

O vento cresceu durante a noite e com ele, o mar! Chegou aos 45 nós embora ainda um pouco aberto de WNW. Tentámos, até às 15:00 de hoje, passar a Punta Delgada para entrar no Golfo Nuevo, ainda com o vento em 60º EB e com apenas 3 metros de mar. Com MQ AV TF e velas fazíamos 8 nós. Mas o vento rodou para a proa e abrandámos para os 2 ou 3. Já não ia dar para prosseguir, o vento estava acima dos 35 nós e o mar continuava a crescer. Guinámos para Oeste e, com o vento mais aberto voltámos a içar pano latino, muito pouco, e navegámos a 8 nós em direcção ao segundo abrigo cuja entrada alcançámos à hora de jantar.

Magalhães também aqui esteve a 24FEV1520 na sua busca da passagem para o Pacífico. Esta entrada parecia-lhe mais provável do que a do Rio de la Plata para ser a entrada do Estreito que tinha visto num Mapa em Lisboa, "porque a água era funda, azul e fria". Mas fundeou ao largo e rapidamente verificou que não era aqui a passagem que procurava há vários meses e que o levaria às ilhas das especiarias reclamando-as para os espanhóis.

Fernão de Magalhães era um nobre navegador português. Nascido em Sabrosa, na margem direita do Douro, navega agora connosco em espírito e sob a forma de um busto que a sua terra natal oferecerá a Punta Arenas, a cidade chilena do Estreito de Magalhães. Será uma cerimónia importante com o Edil de Sabrosa, as várias autoridades e entidades locais e algumas nacionais. Será um ponto importante das comemorações dos 500 anos do grande navegador que não completou a Volta ao Mundo mas que fez um dos grandes feitos da era dos descobrimentos. Magalhães morreria num combate nas Filipinas em 27ABR1521. Apenas um dos cinco navios da esquadra que largou de Sevilha a 10AGO1519 completou a viagem. Com apenas 18 dos 260 homens que tinham partido para a viagem, a Victória regressa a Sevilha em 8SET1522 comandada por Juan Sebatián de Elcano, o Mestre basco da Concepción. Elcano é tão importante para os espanhóis que o seu navio-escola, presente neste festival, foi baptizado com o seu nome.

Estamos, vários elementos da guarnição, a ler ou reler o grande livro de Laurence Bergreen sobre a viagem de Magalhães: "Over the Edge of the World" ou "Para Além do Fim do Mundo". Temos viajado no tempo a identificar os locais que o cronista António Pigafetta identifica e, esta noite, identificámos finalmente no céu as Nuvens de Magalhães.

Entretanto já estamos abrigados dentro do Golfo de San Matías. O mar está calmo mas o vento está de SSW com 35 nós. Para poupar combustível e os ouvidos, colocámos o navio de capa, i.e., com gávea baixa e estai (aquartelado ou caçado a meio) e leme de encontro (para orçar). Esta é uma forma muito antiga que os navios utilizavam para aguentar mau tempo sem perder muito caminho, no tempo em que os navios não tinham motor. E funciona pois em três horas mantivemo-nos dentro de um raio de uma milha.

 

 

 

 

De acordo com as previsões, a viagem continua dentro de pouco mais de um dia. Tentaremos ainda chegar a tempo à Isla de Los Estados e atracaremos em 20 de Março na cidade mais austral Mundo. 

Até breve!

 

 

Fotos:

Mapa da Zona / Mau Tempo / Exercício LA / Busto de Fernão de Magalhães

por: Proença Mendes, Cte do NRP "Sagres"
Tags: Diário de Bordo,Itinerário da viagem,Fotos,Navegando com a Sagres

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2010-03-11 18:42:32

Correcção!

Duas Correcções: Ushuaia é a cidade mais Meridional e não Setentrional como referi na última crónica!
O Concordia afundou-se a Leste do Rio de Janeiro e não a Oeste como referi na altura.
As minhas desculpas! por: Proença Mendes, Cte do NRP "Sagres"
Tags: Diário de Bordo

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2010-03-11 17:48:20

Buenos Aires - Fotos de Monno Rienks

por: Monno Rienks Fotógrafo Holandês a bordo do NRP "Sagres"
Tags: Itinerário da viagem,Fotos,Diário de Bordo

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2010-03-10 07:49:01

09MAR2010 - 50º Dia - Buenos Aires


Quarta-feira 3 de Março fizemos a aproximação final ao porto de Buenos Aires cerca das 21:00. Já tínhamos colocado as vergas em posição de porto, i.e., ferradas a preceito, braceadas pelo redondo e içadas. Iluminação de gala instalada e os amarelos a brilhar. Navegávamos na noite escura com todo o pano latino menos o da crista. Havia muita gente no Clube Náutico à entrada do porto, mas só conseguiam vislumbrar a silhueta do navio e os faróis de navegação. Tocámos a sereia: três longos e um curto, acendendo toda a iluminação de gala ao ultimo toque! Entrámos o porto ao som de aplausos e de vivas à Sagres e a Portugal. Muito bom apoio à manobra pelos rebocadores e Piloto!

O Senhor Embaixador de Portugal, Joaquim Ferreira Marques, aguardava o navio tendo sido logo recebido acertando-se os pormenores da estadia. A Marinha Argentina disponibilizou um Oficial de Ligação, o Capitan de Corbieta Lousada, que cumpriu a sua missão com brio e eficiência, assegurando toda a logística de transportes e necessidades gerais do navio.

Após a atracação, uns saíram para dar uma volta, outros foram utilizar as facilidades de internet e outros foram simplesmente descansar da longa travessia em águas restritas.

Quinta-feira recebemos a bordo vários grupos escolares tal como viria a acontecer em quase todas as manhãs da estadia. Todos de bata branca, os jovens alunos faziam muitas perguntas e só pensavam no nosso "colega" Jack Sparrow. Todas as turmas receberam uma grande foto do navio com uma dedicatória que incluía o nosso conselho: "! Inviertan en vuestra educación pues esa será vuestra mayor riqueza!". Vindo de nós poderá ter mais efeito!

O almoço VIP foi servido às 13:30, co-presidido pelo nosso Embaixador e com a presença do Almirante Omar Godoy, Chefe do Estado-maior General da Armada Argentina, do Presidente Câmara Deputados da Província de Buenos Aires, do Vice-Presidente da Legislatura da Cidade de Buenos Aires, do Presidente da Câmara de Comércio Argentina-Portugal, do Comendador português Alfredo Piano, Presidente do Banco Piano e, em representação do Presidente do Governo de Buenos Aires, do Director das Relações Institucionais e Internacionais do Governo da Cidade. Uma boa representação das instituições locais.

À tarde participámos numa conferência de imprensa conjunta a bordo do navio da casa, a Libertad. Houve muita atenção dos média o que atraiu com os milhares de assistentes ao desfile de tripulações e visitas aos navios durante o fim-de-semana.

À noite realizou-se a primeira das três recepções oficiais da nossa estadia, presidida pelo Secretário de Relações Internacionais. Na noite seguinte seria uma outra oferecida pelo Almirante Omar Godoy, precedida de um Cocktail na residência do Embaixador de Portugal em honra da guarnição da Sagres, com representantes da nossa comunidade, da Marinha e das autoridades locais.

Na manhã de sexta-feira realizou-se a tradicional apresentação de cumprimentos por parte dos navios ao Comandante dos Portos de Buenos Aires, ao Comandante da Marinha e ao Governo da Cidade Autónoma de Buenos Aires. Esta última com refeição volante e apresentação de um espectáculo de Tango em que actuaram os actuais campeões do Mundo. Uma dança espectacular quando dançada àquele nível. A certa altura parece ter um toque de artes marciais, tão rigorosos e arriscados são os movimentos. O Tango estava a cada esquina: Na Calle Florida, na Feira de San Telmo, no jantar de despedida, etc.

À tarde realizou-se uma cerimónia militar com a presença de representações dos navios, em homenagem ao Almirante Brown, fundador da Marinha.

Sábado realizou-se pela manhã o desfile de tripulações com as respectivas comunidades, na Plaza San Martin. Fomos surpreendidos pela nossa comunidade que se apresentou com um Rancho Folclórico Minhoto trajado a rigor, mais os miúdos de uma escola local a agitar bandeirinhas de Portugal e vários elementos da nossa comunidade. Tínhamos cinco vezes mais participantes do que a média das outras delegações. Este grupo espectacular visitou de seguida o navio e fizeram parte dos impressionantes 22 640 visitantes daquele dia - um valor recorde desde a Expo98.

Domingo foi a recepção a bordo da Sagres com o Bacalhau e o Pastel de Nata a receberem os melhores elogios dos nossos convidados. Contámos com a presença do Almirante Godoy, de elementos do Corpo Diplomático, Autoridades Civis e Militares, pessoas de cultura, etc..

Houve várias visitas turísticas guiadas para as tripulações, mas o melhor dos eventos foi o Jantar de Despedida. Na sala de espectáculos Tango Madero, com uma parede de vidro transparente virada para o Puerto Madero, uma zona que outrora foi de cais e armazéns e agora é a mais fina da cidade. Assistimos, cerca de 20 elementos da guarnição, a um espectáculo de tambores seguido de um de Tango e música, tudo acompanhado de uma refeição preparada por um dos mais destacados Chefs da Argentina: entrada com as tradicionais empadas, bife de chourizo (é o corte e não o enchido) e gateaux de chocolate. Com vinhos Argentinos - bons como os nossos.

Entretanto, a bordo, os nossos Sargentos e Praças ofereciam uma recepção aos seus pares dos outros navios. Uma oportunidade de convívio que promove e reforça o conhecimento mutuo e a camaradagem.

Buenos Aires é uma cidade metrópole onde por vezes mais nos parece estar numa capital europeia. Na verdade a Argentina é um país riquíssimo, auto-suficiente em praticamente tudo, com um fortíssimo sector primário, exporta carne, cereais, vinho, azeite, frutas, citrinos, pescado, etc. É rico em minerais, tem petróleo, tem uma das mais extensas plataformas continentais do mundo e tem um potencial turístico enorme. Diz-se por cá que o país tem capacidade para alimentar 300 milhões de habitantes, sendo que a sua população é de cerca de 40 milhões. As marcas locais são acessíveis e os restaurantes de qualidade estão bem ao nosso alcance quando comparados com a Europa. Nas ruas não faltam as referencias a El Pibe e ouve-se Carlos Gardel e Astor Piazola por todo o lado.

Os Argentinos são um povo com uma identidade muito vincada e cultivam muito o patriotismo. São descendentes de uma forte imigração proveniente da Europa, sobretudo de Itália e de Espanha durante os anos 1930's, a época de ouro, em que se construíram os edifícios e palácios que a distinguem a sua capital.

Esta foi uma visita com uma elevada carga protocolar mas que nos permitiu conhecer melhor os nossos camaradas da Marinha Argentina cuja postura e dedicação muito nos agradou. Trata-se de uma Marinha composta por pessoas com as quais nos identificamos perfeitamente.

Tivemos cultura, turismo, compras de lembranças e alguns até receberam a visita de familiares vindos de Lisboa para matar saudades enquanto se visita uma cidade imperdível. Passeámos na 9 de Julio, a avenida mais larga do Mundo, na Calle Florida, uma rua pedonal repleta de lojas, no El Camiñito, na Boca, onde se situa La Bombonera, o estádio do Boca Juniors que, curiosamente usa as cores azul-amarelo-azul porque, à falta de entendimento, os seus fundadores decidiram utilizar as cores da bandeira do primeiro navio que entrasse no porto. Foi um navio Sueco! Jantámos na Recoleta e em Puerto Madero, um novo centro da cidade. No domingo fomos à Feira de San Telmo onde há de tudo.

Foi também um porto de apoio logístico em que recebemos de Lisboa vários sobressalentes e materiais necessários à nossa missão. Recebemos também agasalhos que a fábrica local contactada não conseguiu fornecer em quantidade mas que a nossa Direcção de Abastecimento cá colocou em tempo.

A cobertura mediática foi boa. Demos entrevistas para Rádios, Televisões e Jornais Argentinos e Portugueses. Ligámo-nos, via Skype ao programa da RTP1 "Portugal Sem Fronteiras". Fizemos directos para a Antena1 e para as rádios locais.

A Comunidade Portuguesa recebeu a sua injecção de orgulho nacional como nos foi dito. Perante os acontecimentos do Chile, e já que a Sagres lá vai, mobilizou-se para reunir 600 kg de leite em pó a que se juntaram medicamentos oferecidos por uma farmacêutica dirigida por um português.

A visita a portos do Chile mantêm-se embora se passe de um registo festivo para um registo solidário e de apoio. Está cancelada a paragem em Talcahuano cujo porto foi destruído pelo tsunami que se seguiu ao sismo. Está em estudo a paragem num porto alternativo e os respectivos ajustes de planeamento. Entretanto embarcámos cinco Guarda-marinhas chilenos do Esmeralda que farão esta tirada connosco.

Largámos às 14:00 com muita assistência no cais e molhes do porto. Só às 5 da manhã é que sairemos de águas restritas - tínhamos três pilotos à largada e vão-se revezando!

Nos próximos 10 dias a temperatura média do ar baixará 20ºC e a da água do mar baixará 15ºC para os 9. Vamos a caminho da Isla de Los Estados (55ºS-64ºW) onde desfilaremos frente ao farol de San Juan del Salvamento, imortalizado por Júlio Verne como farol do Fim do Mundo e atracaremos em Ushuaia, a cidade mais setentrional do nosso planeta, no próximo dia 20 de Março. 

Até breve!

 

 

Fotos:

Por do Sol / Visitas ao navio / Comunidade Portuguesa / Rancho Folclórico / Comandantes com Almirante Godoy

por: Proença Mendes, Cte do NRP "Sagres"
Tags: Fotos,Itinerário da viagem,Diário de Bordo

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2010-03-04 03:50:48

03MAR2010 - 44º Dia - Uruguai

Navegamos entre Montevideu e Buenos Aires. Mar chão, vento favorável, Máquina AV TF, e o Radar pejado de manchas: são as nuvens que não param de descarregar os seus aguaceiros e trovoadas. Mas não está frio. São 130 milhas em águas restritas e largámos às quatro da manhã. Esperamos atracar às 21:00.

Já passámos a madrugada de dia 28 fundeados na bela baía de Punta del Este que se constitui como um abrigo perfeito. É a zona balnear por excelência do Uruguai. Grandes hotéis mais à ponta e casas de sonho mais para dentro. Oceano Atlântico de um lado e Rio de la Plata do outro.

A Marinha Uruguaia organizou um vaivém de embarcações para a guarnição visitar a vila de Maldonado, o que constituiu uma oportunidade única.

A reunião de Comandantes no Capitan Miranda, da Marinha Uruguaia, decorreu muito bem. O espírito de camaradagem está a sair reforçado e vive-se um ambiente como se nos conhecêssemos há já vários anos. É normal entre marinheiros e acontece entre todos os grupos: Imediatos, Oficiais, Sargentos e Praças. Apresentámos condolências ao Comandante do Esmeralda, da Marinha Chilena, e combinámos ficar com as bandeiras a meia haste durante aquele dia, em sinal de luto pelas vítimas do sismo do Chile. Combinámos o tipo de ofertas a levar para as apresentações de cumprimentos para não haver discrepâncias.

Fomos recebidos no Yacht Club de Punta del Este pelo Presidente da Câmara, pelo Ministro do Interior, pelo Comandante da Marinha e pelo Presidente do Clube. Após a apresentação de cada Comandante e a troca de lembranças, seguimos em autocarro para assistir ao pôr-do-sol na Casapueblo em Punta Balleña. Trata-se da casa-museu de Carlos Páez Vilaró, 84 anos, o mais internacional dos artistas plásticos Uruguaios. Construída aos acrescentos numa arriba, por ele próprio com a ajuda de pescadores da zona desde há 50 anos, as formas são de forno de pão e identifica-se perfeitamente a aversão do artista aos ângulos rectos e linhas direitas. Repleta de obras do artista e recordações das suas viagens e vivencias, são dezenas de salas em que se viaja pelo mundo num ambiente que, guiado pelo próprio artista, nos deixa deslumbrados.

O pôr-do-sol, devido à nossa latitude e à sua declinação, foi muito rápido mas teve uma beleza espectacular e deu raio verde. Seguiu-se o jantar oferecido pela Câmara Municipal de Maldonado no enorme Hotel Conrad      

No dia seguinte suspendemos o ferro às 08:00 e navegámos em direcção a Montevideu passando junto à Punta Balleña com todo o pano latino caçado para uma média opportunity solicitada pela organização, que incluía a saudação a Paéz Vilaró como é costume da Marinha Uruguaia em virtude da ligação que os liga. Atracámos às 18:00, com pano latino até ao fim, depois de uma longa espera para que um navio de cruzeiro libertasse o lugar que nos estava destinado.

Seguiu-se logo um "assado crioulo" em que participaram 50 elementos de bordo num total de mais de mil pessoas com apresentação das guarnições, espectáculos de carnaval e a boa carne uruguaia. Assisti ao regresso do nosso grupo a bordo e vinham felizes.

À nossa chegada estava a Embaixadora Luisa Bastos de Almeida com uma pequena delegação da embaixada e o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr. António Braga, que se deslocou ao país para assistir à tomada de posse do novo Presidente da República que decorria naquele dia.

Prestadas as devidas honras, mostrei o navio, expliquei a missão e realcei o importante papel desta barca no reforço do orgulho nacional que imprimimos às Comunidades Portuguesas visitadas. Jantámos, eu e o Imediato, com o SECP e o grupo que nos visitou, a convite da Senhora Embaixadora, carne do Uruguai.

O dia 2, terça-feira foi um grande desafio para nós. Conferência de Imprensa a bordo às 10:00, visita do SECP para despedida antes do seu voo de regresso, os tradicionais cumprimentos protocolares, às 11:00, e uma reunião de Comandantes e Navegadores para acertar o plano de largada e atracação no próximo porto. Às 12:30, prova de vinhos Bacalhôa para importadores. A Bacalhôa oferece os vinhos que são servidos na Camarinha. Às 13:30, almoço VIP com a Senhora Embaixadora a co-presidir, com a presença do Comandante da Marinha e dos dois Almirantes mais antigos.

O navio esteve aberto a visitas até às 17:30 e às 19:30 oferecemos a recepção de porto. Tivemos em conta que havia recepções em outros 3 navios e apontámos para uma taxa de erosão significativa na lista de convidados. O esforço e dinamismo da nossa Embaixadora, que está em fim de colocação em Montevideu, fez com que tivéssemos casa cheia: 295 presenças. Apontámos para as 150, mas damos sempre folga. Neste caso foi necessário um empenho suplementar e, graças ao zelo e dedicação da equipa das recepções, tudo correu bem! Esta equipa é constituída pelo pessoal do serviço de abastecimento e reforçada por pessoal de outros serviços.

Terminada a recepção, foi a despedida formal da Senhora Embaixadora, com muitos agradecimentos de parte a parte pois fez-se o impossível numa estadia de apenas 34 horas. Nós demos o navio mas, para o sucesso dos eventos, é necessário trazer jornalistas e os melhores convidados. E assim foi. Havia governantes, empresários, figuras da alta sociedade, outra vez o Comandante da Marinha, Embaixadores, etc. Houve ainda transmissões de televisão para os telejornais com entrevistas em directo ao Comandante do Navio e ao Comandante da Marinha. Tudo graças ao reconhecimento que a Senhora Embaixadora granjeou na sua função ao longo dos últimos três anos. Bem-haja pelo apoio, amizade e carinho para com a Sagres que recebeu duas vezes neste período.

34 horas porque a nossa largada foi marcada para as 04:00 devido à necessidade de libertar o cais para um Cruzeiro. A alvorada tocou às 02:00. Tínhamos que desmontar toldos e mesas de apoio e preparar o navio para a largada que decorreu normalmente, navegando agora estas 18 horas com apenas 2 a 5 metros abaixo da quilha, i.e., com cuidados redobrados.

O programa de Buenos Aires também é muito completo mas teremos 5 dias para o cumprir!

Até breve!

 

Fotos:

Comandantes do Simón Bolívar (Venezuela), Sagres, Esmeralda (Chile) e Glória (Colombia)

Cte Sagres, Embaixadora Luisa Bastos de Almeida e SECP, Dr. António Braga

Princesa Laeticia D'Arenberg e marido, Embaixadora Luisa Bastos de Almeida, Contra-almirante Hugo Viglietti di Mattia, Comandante da Autoridade Maritima e mulher.

Colónia de Sacramento

Retocando a palma

por: Proença Mendes, Cte do NRP "Sagres"
Tags: Fotos,Itinerário da viagem,Diário de Bordo

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A viagem
O Navio Escola Sagres inicia a 19 de Janeiro a sua terceira viagem de circum-navegação, que deve durar cerca de onze meses. É a terceira vez que a Sagres realiza uma Circum-navegação, tendo a última viagem ocorrido em 1983/84.

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