Noite em Pequim. Quente. Húmida. Zona mista do atletismo cheia, com um turbilhão de jornalistas à procura de entrevistas, de "estórias" de vencidos e vencedores.
Acontecem ao mesmo tempo várias provas, mas a mim (a nós) só interessa o triplo salto. É fácil sentir o peso do momento. Nélson Évora é a última esperança de ouro para Portugal nos Jogos da China.
Nélson luta com um adversário forte, inglês, com cabelo esquisito e muito talento. Mas a noite depressa escolhe o novo "imortal" do triplo salto.
Não foi preciso chegar aos 18 metros... e nem sequer aos 17, 74 ( melhor marca de sempre de Nélson Évora. Mas se tivesse sido necessário, acho que ele chegava lá. Bastou o tal número que Portugal já conhece - 17, 67 metros...
A luta acaba e Nélson chora ao fazer o último salto. Sacode a pressão que não lhe pesou nos ombros e embala todo um país no sonho de ouro.
Há 12 anos que Portugal não era ouvido e visto assim tão alto num estádio olímpico.
Por isso, depois de Vanessa, regressaram os arrepios de felicidade. Porque com o Nélson, saltámos todos nós.
Eles são os homens que carregam a câmara ao ombro, que fazem os "bonecos" que nos inspiram (quando há inspiração), que agarram o momento ao qual colamos o texto e que acaba servido à mesa televisiva dos portugueses. Eles são o Vedin Trhulj, o Lucínio Ribeiro, o Bruno de Jesus, o Pedro Mateus e o Rui Rodrigues.
Hoje escrevo sobre o Rui, que me acompanhou na épica reportagem das horas de festa da Vanessa Fernandes, após a conquista da prata no triatlo.
Depois do controlo anti-doping, a Vanessa regressou ao hotel, de bicicleta, a mesma que lhe deu um terço da medalha. Eu e o Rui fomos ao lado, de automóvel, com uma companhia especial: Venceslau e Hermínia Fernandes, os pais da campeã.
Chegados ao hotel, o Rui arrancou na "roda" de Venceslau, Vanessa e Hermínia, passou à vontade pela grande dificuldade da etapa (a segurança, fascinada com a proximidade de uma medalha olímpica) e atingiu a meta - o interior do hotel. Eu, actor secundário, fiquei do lado de fora, a estacionar o automóvel. Depois já não consegui ir na fuga... fiquei com o resto do pelotão de jornalistas.
Lá dentro, o Rui fazia a nossa reportagem. Fomos falando ao telefone, indiquei-lhe umas perguntas para a entrevista que ele próprio fez à Vanessa.
Conseguimos ter momentos absolutamente extraordinários de reportagem, que se converteram numa peça da qual me orgulho. Mérito, principalmente, do Rui Rodrigues. E do grande trabalho de edição do Miguel Teixeira.
Ah, o Miguel Teixeira e o Virgílio Matos são os nosso homens da edição em Pequim. Aqueles que pegam nas imagens em bruto e as transformam sempre em algo que vale a pena ver.
É que uma reportagem é sempre feita a três. E por vezes o jornalista, aquele que dá a voz e a cara, não é a peça mais importante da "estória".
Uma dica final. Se algum dia andar de automóvel à noite com o Rui Rodrigues na China, não acredite quando ele lhe disser que conhece o caminho de volta para o hotel (depois de um dia extenuante no triatlo).
Eu e o Miguel Teixeira acreditámos e só percebemos o erro quando demos de caras com a Muralha da China.
Não fosse a Muralha e só teríamos parado na Mongólia. O homem faz bons "bonecos", mas não se orienta nas estradas chinesas.
A sensação é estranha. Estão 35 graus, mas de repente passa por mim um arrepio, que não pode ser de frio. É de emoção. O hino não tocou, mas a bandeira lá estava, no pódio, ao lado da dobradinha australiana.
Só consegui ver a Vanessa no pódio pelo video-wall, embora estivesse a poucos metros do momento mais doce para Portugal nestes Jogos. Não consegui passar pela floresta de fotógrafos e jornalistas... uma verdadeira Babel das notícias.
O esforço foi dela, os treinos, as provas superadas, o terrível desgaste sofrido num percurso duro, com a concorrência mais forte... tudo isto tem a marca dela. Da Vanessa.
Mas toda a equipa da RTP que lá esteve, que viu de perto a prata abraçar Portugal, também sentiu esta medalha como se fosse um bocadinho nossa e de todos os portugueses que não puderam lá estar.
Porque para nós a Vanessa Fernandes valeu ouro... valeu um momento que nunca mais esqueceremos nas nossas carreiras e nas nossas vidas.
Parabéns Vanessa. Parabéns Portugal!
De repente, o Miguel Teixeira chamou-me! Era a Volta, o stream não bloqueou...e estava ali, servida e pronta a consumir, na mesa do bar do IBC, onde a rede é mais rápida.
Foi emocionante. Ainda era cedo na etapa, mas para mim foi uma sensação forte, como num último quilómetro da etapa da Serra.
Mandei um SMS ao Marco, ao Alexandre e ao Miguel (obrigado!) para lhes dar conta deste momento histórico, no meu pequeno Mundo pessoal. Eu não consigo ir á Volta. Mas a Volta veio até á China e deixou-me cheio de saudades. Depois, a Net parou.
Mas a vitória já cá cantava.
Estou no IBC, a nossa casa em Pequim.
Soaram agora os primeiros estrondos de muitos que irão encher a noite da cidade. Não é hora de por aí se ver post algum, mas é a melhor para o escrever. Estou no bar. Lá dentro do nosso pequeno espaço próprio há demasiados caixotes meio arrumados, um pseudo-caos controlado para revolver e uma gravação a ser feita. Os nossos já comentam ou fazem reportagem.
Por aqui, de lado de fora da cerimónia está tudo mais vazio. A moça do bar nao tem clientes, mas fez um aplauso nervoso ao troar do fogo de artifício. De resto, há senhoras da limpeza que já desistiram de me pedir pins (não tenho um que seja). Não sou muito popular por aqui, entre os milhares de entusiastas desse autêntico negócio olímpico.
Amanhã bem dedo, quase toda a equipa da RTP levanta vôo. Serão muitas horas em viagem, para a maioria 25, com escalas e trajectos.
Hoje, fiz aparentemente as minhas últimas reportagens nesta terra, que irão ver caso o alinhamento das notícias do Mundo lhes reservem espaço. Se assim suceder, é porque por aí ainda vivem algo dos Jogos, da China, dos sonhos e desfeitas que eles nos proporcionaram nos últimos dias. Contrastes, histórias, chineses e portugueses... foi disso que que se fizeram os nossos muito longos dias de Jogos.
Fico com muita pena de não ter podido contar mais histórias neste espaço ao longo destes dias. Era humanamente impossivel, acreditem. Mas tenho pena. Adorei a permuta de sentimentos e opiniões, do meu e do vosso entusiasmo. As críticas, os elogios, os comentários mais profundos como os despropositados.
Esta via tem a vantagem de nos aproximar. Por aqui, tentei dar "olfacto" ás nossas histórias, partilhar as ambiguidades intoleráveis na antena. Uma equipa de jornalistas vive na cobertura de uns Jogos Olímpicos, muitos episódios que dão espectaculares tertúlias, mas raramente globais. Foi nesse espírito que aqui vim, é nesse espírito que daqui vou.
A todos, obrigado.
A Vanessa não precisa de ganhar medalha alguma para conquistar a minha admiração. Não me desiludirá se perder, não passará a ser mais relevante para mim se ganhar. Quis que ficasse escrito, agora que estou a acabar de preparar a emissão de amanhã... madrugada para vocês.
Estive a pensar sobre a imagem que deveria usar neste post. Não estive ainda com a Vanessa, não tenho o meu recurso favorito... o meu telemóvel está a revelar-se um instrumento fotográfico precioso para estes momentos. Mas de repente, lembrei-me.
Há uns tempos atrás, um verdadeiro fã da Vanessa, o meu melhor amigo, carimbou o seu crer na Selecção Nacional de futebol num autocarro laranja.
Tal como com a Vanessa, foram muitos os que se dispuseram a pôr ali por escrito a prova da sua confiança. Aquele dedito, que quando saí de Portugal tinha sete anos de vida e agora já tem oito, destacava o seu vínculo àquela esperança, como eu faço agora em relação a esta.
Esta tarde, sei de uma criança que, como há muitos Jogos atrás me sucedeu, quiz fazer a sesta para tentar testemunhar a História - quem sabe se a festa - às 3 da madrugada. Não sei se ele ou a Vanessa vão conseguir os seus ousados objectivos. Mas, pelo esforço, ambos merecem acreditar. É também por isso que torço por ela... e mais ainda por ele.
Nos últimos anos, a face de Pequim mudou. Muitos dos tradicionais bairros da capital chinesa, os Hutong, foram substituídos por arranha-ceús. O Governo chinês tenta agora preservar os que restam, mas parte da história da cidade já desapareceu.
Muita chuva, muitas indecisões, vento e mais vento. Temporal. Foi assim este Domingo, em Qingdao. Luz sobre as medalhas? O tempo manda. O vento conduz.
Foi sempre a cair, do céu, inclemente, sem perdão. A chuva entrou mais uma vez nos Jogos, agora, em força, na vela. Ninguém escapou. Que Domingo!
Alguém resolveu ligar o chuveiro gigante de Qingdao e ninguém o desligou. Em terra e no mar, um desespero. Para jornalistas, mais regatas adiadas, lugares por confirmar, para velejadores, um tormento entre as ondas, mas alguns com perícia suficiente para descobrir atalhos por entre as estradas de água desenhadas no mar, o tal que é amarelo. Não se nota nada.
O tempo está zangado, mas os velejadores portugueses não ligam à falta de sentido de humor da meteorologia. Pelo menos não têm ligado. Perguntem ao Antímio de Azevedo o tempo que vai fazer aqui amanhã, em Qingdao, perguntam? Interroga-se o chinês: quem é esse senhor? Respondo: não têm nada que saber, desliguem primeiro o chuveiro? Ok!!!
Há muitos anos que me habituei ao timbre da voz dele. Associei-o a tardes, noites e madrugadas de sucessos e desfeitas desportivas, como a voz que me ensinava a ler as imagens.
O Jorge é o que têm em comum as minhas memórias dos vários heróis e heroínas do Atletismo português, do passado ao presente.
Conhecemo-nos há uns bons anos, trabalhamos juntos, partilhamos emissões. Já aprendi muita coisa com e sobre o Jorge Lopes. Agora, já é o meu filho que se agarra também ao televisor, ouvindo compenetrado as suas lições de desporto e comunicação. Quando visita a RTP, é o Jorge que ele procura, fascinado com a quantidade de informação que recebe... e, acreditem, há pequenotes sedentos de muita informação...
Todos os Jogos são duros para o Jorge. Estes, especialmente. Se tem a RTP HD, conte as horas que o ouve...
Ontem, tive o previlégio de seguir a prova dos 100 metros ao lado dele, no Estádio.
Fantástica, a serenidade de quem sabe que o momento tem tensão suficiente só por si para não precisar de a aumentar. Incrível, a capacidade de, de repente, gerir a entrada e saída em directo em mais 1, 2 ou 3 canais.
Coloquei os auscultadores, como na Cerimónia, mas caladinho. E lá ouvia: "Jorge, agora tambem na RTP2". "Jorge, agora tambem o Jornal da Tarde". Chegavam e saiam milhares de telespectadores, e ele estava sempre lá. São muitas horas por dia, muitos anos por carreira, muita... vida.
E a Maratona, para os atletas, só começou hoje... Já ele deu tantas voltas ao Mundo a comunicar.
É o reflexo do crescimento económico. Na China, trabalham arquitectos de todo o mundo, incluindo portugueses.
Esta é a história de uma viagem que começou atribulada, não teve tradução a meio para português, e no final só deu para rir, ou...reflectir.
Aeroporto de Pequim, oito da manhã, terminal 3, o maior do mundo apinhado de gente, o mundo todo num só espaço, monumental.
Destino: Qingdao. Protagonistas, eu e o Lucínio Ribeiro (repórter de imagem RTP).
Depois das formalidades habituais de embarque, depois de sermos revistados até aos ossos, é hora de entrar no avião.
Apertem os cintos, vamos descolar. Atrás de nós um casal chinês, teria 60 anos. Começaram as perguntas: quem somos, para onde vamos, porque estávamos na China. Eis senão quando, e com os motores já em acção para levantarmos voo, o tal casal levanta-se. Em mandarim começam a protestar, alto e bom som, mais ela. Faltou enviar este discurso para a legendagem, acreditem.
Avião imobilizado na pista, sai o comandante, o casal é "libertado". Saímos a seguir todos, seriam 200 pessoas, e eu e o Lucinio sem entendermos que filme era aquele. Na pista, os passageiros, maior parte chineses, pediam explicações ao estranho casal.
Uma hora depois, já com os "protestantes" a caminho da polícia, voltamos a entrar. Aqui sou surpreendido. Lucínio é interrogado pela polícia. Quis saber porquê. Não me dizem. Segurem-se: outra senhora, chinesa, mas bem falante no inglês, diz-nos que o casal quis abandonar o avião com destino a Qingdao porque eu e o Lucínio fomos conotados como membros de alguma organização terrorista sediada no...Médio Oriente. Olhamos um para o outro, deu para rir, deu para recebermos desculpas por parte da tripulação, deu para pôr mais de meio avião a olhar para nós, entre a desconfiança e o sorriso...amarelo.
Agora, e depois deste episódio absurdo, depois de aterrar em Qingdao, só me apetece um desabafo: a meio dos Jogos Olímpicos, nunca julguei que ainda era possível desconfiar de alguém com uma camara ao ombro, e outro alguém de microfone.
Ainda dizem que a profissão de jornalista não é de alto risco.
Aparentemente, as medidas tomadas para melhorar a qualidade do ar em Pequim não estão a resultar em pleno. Em entrevista à RTP, Weng Bo, um dos mais conhecidos activistas ambientais chineses, diz que são necessárias mudanças mais profundas.
...Está até uma temperatura portuguesa, vejam lá...
Se tivesse levado bronzeador ao remo, sempre ficava mais... Agosto... Mas este ano, o Sol de Beja, à espera do directo da Volta a Portugal do Jornal da Tarde, encontrou-se com o enorme Alexandre Santos. Bronze de camionista garantido... e saudades desde a China.
Com todas as equipas na rua, os banhos extra foram inevitáveis e várias reportagens adiadas ou... remediadas.
Há alguns de nós com um pouco mais de azar do que os outros. O prémio Roupa Nova 2008 vai para o Vedin Truhjl. Anteontem o calor era tanto que a tshirt, torcida, dava para encher um balde. No caso, acho que comprou a segunda tshirt de emergência algures por aí, sem olhar ao estilo. A sério: a coisa foi de tal ordem que a camera se recusou a trabalhar, num medida de rotesto temporaria, queixando-se justamente do contacto com demasiada humidade...
Giro... Com o banho que segue em anexo na foto, o Vedin foi - desta vez - obrigado a comprar calçado. Umas coisas estranhas, entre o sapatinho-de-ir-ao-rio e as chinelas, que experimentou antes de erguntar o preço. Resultado: teve mesmo que comprar, à cotação de Portugal, aquelas preciosidades. Pior... molhou-as também, claro! :-)
Eu também já tenho sapatinho chinês, mas foi a cola portuguesa que cedeu. Logo substituida por outra, chinesa. Sempre a andar...
Pela RTP, qualificaram-se:
Alexandre Afonso
Ana Isabel Ramos
Bruno Jesus
Fernando Eurico
Hugo Gilberto
Ildebrando Aires
João Pedro Mendonça
João Pedro Silva
João Vasco
Jorge Lopes
Lucínio Ribeiro
Manuel Fernandes Silva
Miguel Teixeira
Paulo Roque
Pedro Mateus
Rui Loura
Rui Rodrigues
Vedin Truhlj
Virgílio Matos