Grandes Livros

"Grandes Livros" é um projecto multi-plataforma de divulgação da literatura portuguesa que
envolve uma série de 12 documentários, com 50 minutos cada, narrados por Diogo Infante, actor
e director do Teatro Nacional D. Mª II.

Diogo Infante

2009-06-23 15:33:25

Navegações

«Navegações» é o décimo primeiro livro de poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen - a primeira edição foi publicada, em 1983, pela Imprensa Nacional Casa da Moeda. Os poemas que o integram surgem na sequência de um convite, endereçado pelo Conselho da Revolução, para a participação na Celebração do Dia de Camões, em Macau (1977).
Navegações

Nessa primeira viagem que faz ao Oriente, Sophia deslumbra-se com a beleza, as cores e a cultura daquelas paradisíacas paragens. No discurso proferido aquando da entrega do Prémio do Centro Português da Associação de Críticos Literários (1984), Sophia recorda as primeiras impressões que teve daquele território, ainda a bordo do avião, em pleno voo sobre o Vietname: "Pensei naqueles que ali chegaram sem aviso prévio, sem mapas, ou relatos, ou desenhos ou fotografias que os prevenissem do que iam ver. Escrevi os primeiros poemas simultaneamente a partir da minha imaginação, desse primeiro olhar, e a partir do meu próprio maravilhamento." Aliás, a autora reconhece que "à medida que os poemas iam surgindo ia-se decidindo em mim a vontade de os editar ao lado dos mapas da época, os mapas onde ainda é visível o espanto do olhar inicial, o deslumbramento perante a diferença, perante a multiplicidade do real, a veemência do real mais belo que o imaginado (...)".

Em «Navegações» os Descobrimentos e os descobridores portugueses são invocados e revisitados. E o mar é o elemento decisivo, central, que possibilita o conhecimento intemporal. "Para mim o tema das Navegações não é apenas o feito, a gesta, mas fundamentalmente o olhar, aquilo a que os gregos chamavam aletheia, a desocultação, o descobrimento. Aquele olhar que às vezes está pintado à proa dos barcos." por: Grandes Livros
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2009-06-23 14:57:23

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1919 (e faleceu, em Lisboa, a 2 de Julho de 2004). Frequentou o curso de Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1936-39), no qual aprofundou a sua admiração pela civilização e cultura gregas - aliás, referências muito presentes na sua obra.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen

Em 1944 - ano em que fez 25 anos - publicou o primeiro volume poético, intitulado «Poesia». Dois anos mais tarde, casa-se com Francisco Sousa Tavares, advogado, jornalista e político. O reconhecimento da influência do activismo político do marido é descrito, em forma de dedicatória, no volume «Contos exemplares» (1962) - "Para o Francisco, que me ensinou a coragem e a alegria do combate desigual".

Sophia teve uma actuação cívica relevante antes e depois do 25 de Abril, na oposição ao regime de Salazar e na defesa das liberdades: foi co-fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, presidente da Assembleia-geral da Associação Portuguesa de Escritores e, após a Revolução, deputada à Assembleia Constituinte.

Foi agraciada com várias distinções literárias: Prémio Camões (1999), Prémio Max Jacob de Poesia ( 2001) e Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana (2003).

Embora seja mais conhecida do grande público como autora de contos infantis - incluídos nos currículos escolares -, a sua obra é extensa e diversificada. Vai da poesia à da ficção, passando pelo ensaio, textos para teatro e tradução.

por: Grandes Livros
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2009-06-16 12:27:34

Sinais de Fogo

O Verão de 1936 ficaria marcado pelo eclodir da Guerra Civil Espanhola. Na Figueira da Foz, que era amplamente frequentada por turistas espanhóis, o impacto desse trágico momento foi profundo.
Sinais de Fogo
Mercedes e Jorge (Patrícia Benito e Pedro Mendonça)

A cidade, as praias e aqueles que todos os anos escolhiam a Figueira como destino de férias, a guerra apanhou todos desprevenidos e a adaptação a essa realidade não seria fácil, num país em que a ditadura salazarista grassava.

Jorge foi para a casa dos tios aproveitar o tempo livre de aulas e reencontrar os seus amigos de todos os verões, numa atmosfera separada da Lisboa que deixava para trás. Nos cafés da cidade explodem discussões entre franquistas e radicalistas espanhóis, o tio mantém dois clandestinos em casa e as amizades estão diferentes. Rodrigues, Ramos, Macedo e a bela Mercedes já não são os mesmos do ano anterior. Ou será Jorge que está a mudar? Entre a descoberta da sexualidade e a entrada na idade adulta, num território que sente próxima a guerra que decorre além fronteira, os episódios são-nos narrados pelo jovem lisboeta, na primeira pessoa, numa auto-descoberta por vezes cruel.

Esta obra é parte do grande projecto de ficção (Monte Cativo) que Jorge de Sena nunca chegou a acabar, e mesmo a sua publicação foi póstuma. As cenas descritas, as palavras usadas, as dúvidas presentes ainda hoje provocam reacções apaixonadas e, ao longo da leitura, surge sempre uma comparação entre o escritor e aquele (também) Jorge que, entre fogos acesos, se descobre poeta.

por: Grandes Livros
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2009-06-16 12:24:30

Jorge de Sena

Muitos consideram-no um grande nome da literatura portuguesa e uma figura incontornável do século XX nacional, mas muitos nunca ouviram falar nele, ou não vêm qualquer justificação para o mencionar. Mais de trinta anos depois da sua morte (em Junho de 1978), Jorge de Sena continua a ser uma persona controversa no panorama português.
Jorge de Sena

Professor universitário, dramaturgo, contista mas, acima de tudo, poeta, Sena encontrou no estrangeiro a liberdade que a ditadura salazarista não lhe concedia em território lusitano. Sem papas na língua e, segundo os que com ele conviveram frequentemente referem, intolerável á mediocridade, Jorge de Sena partiu para o Brasil em 1959 em busca de uma consideração e de um respeito que os eruditos portugueses não lhe atribuíam. Em "terras de Vera Cruz", embora de início tenha conseguido alcançar parte do seu objectivo, viu-se obrigado a procurar novo refúgio, longe de uma outra ditadura que lá grassava. Foi na Califórnia, nos Estados Unidos, que acabou por assentar, com a sua esposa Mécia e os seus nove filhos. Docente na Universidade de Santa Bárbara, onde leccionava a sua amada literatura em língua portuguesa, conseguiu, enfim, algum tempo para produzir os seus textos. Prolífico, deixou imensas páginas de crítica literária, traduções, contos, diários, ensaios, romances, correspondência e, claro, poesia.
Num paralelismo imenso com outros dois enormes vultos da poesia portuguesa, Jorge de Sena debruçou-se no estudo e na criação poética em torno de Camões e Pessoa. Inspirações, almas gémeas, antepassados, Sena procurou recriar esses mundos líricos, mas sempre sem abdicar da sua verdade.
De legado ficam Sinais de Fogo (romance publicado postumamente), O Físico Prodigioso (novela, 1977), Andanças do Demónio (colectânea de contos, 1960), O Indesejado (teatro, 1951), Uma Canção de Camões (ensaio, 1966) e Metamorfoses (poesia, 1963) e tantos outros.
Fica a sua missão, nas suas próprias palavras: "um desejo de exprimir o que entendo ser a dignidade humana: uma fidelidade integral á responsabilidade de estarmos no mundo, mesmo quando tudo nos queira demonstrar que estamos a mais... ou a menos." por: Grandes Livros
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2009-06-08 11:25:02

Viagens na Minha Terra

Publicada em 1846, a obra Viagens na Minha Terra continua a ser um texto de difícil definição. Exemplo magistral do talento de Almeida Garrett, este livro condensa vários estilos literários e um dos retratos mais realistas do Portugal do século XIX. Narrativa de viagens, manifesto político, crónica jornalística, romance, tudo cabe dentro nestas páginas.

Viagens na Minha Terra
Almeida Garrett

A "história" começa com a partida de Lisboa de um sujeito-narrador (identificado como Almeida Garrett) rumo a Santarém, para uns dias de descanso na casa de seu amigo Passos Manuel. A partir daqui, e com descrições esplendorosas de certas áreas de Lisboa que hoje já não se descobrem, o narrador segue o seu trajecto... de barco, de charrete e até às costas de um simpático burrico. Enquanto viaja, também a sua mente vagueia pelo passado, pelo presente e pelo futuro. São estas as outras "Viagens" que o titulo aponta: um olhar sobre o Portugal de oitocentos, sobre a sociedade nacional, sobre a politica corrupta, sobre o desencanto final do liberalismo. Entre as observações surge um paradoxo inesquecível: os "frades" e os "barões", quais Sancho Pança e Dom Quixote lusitanos, que, entre si, tomam as rédeas do país e incutem o progresso. Os "frades" representam o conservadorismo, a tradição, os velhos e inquebráveis costumes. Os "barões" são os acomodados, os antigos lutadores que, abdicando dos seus ideais, se entregam ao vício, ao diletantismo e a preguiça da demagogia. Um sem o outro não existem, um sem o outro não fazem o país caminhar.

Mas há muito mais nas páginas de "Viagens na Minha Terra". Para a posteridade, e porque o Romantismo "exigia" uma história de amor desafortunada para ilustrar o arrebatamento e consequentes perigos da paixão, temos o romance entre Carlos e Joaninha. Com os seus olhos verdes (aos quais é dedicada uma página de louvores), ela representa a pureza da vida campestre, limpa da corrupção citadina, impoluta na sua mente ingénua. Ele é o símbolo heróico das lutas liberais, do combate de palavras e d armas que marcou a geração de Garrett. Carlos foi criado com Joaninha, sua prima, no Vale de Santarém, mas procura longe algo que sentia faltar-lhe. Entre romances falhados e lutas variadas vê-se retornado ao local de onde partira. Vê-se rendido aos encantos da sua bucólica parente e, perante a sujidade que a vida das grandes cidades já lhe entranhara na alma, renuncia ao seu amor. Nas alas deste desenrolar trágico surgem-nos a figura da avó Francisca (cega, sofrida, carente) e de Frei Dinis (carregado de remorso).

Ficam-nos estas "Viagens" que, fisicamente, foi breve (Lisboa - Santarém; Santarém - Lisboa), mas que atravessou toda a alma de um país  que ainda se descobre entrelinhas.

por: Grandes Livros
Tags: Almeida Garrett

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