As histórias de vida são como uma estrada em constante construção. Por vezes feitas de rectas, onde a paisagem se repete sem sobressalto e onde podemos simplesmente aproveitar a viagem e desfrutar do caminho. Por vezes com curvas apertadas, que subitamente surgem no trajecto, sem sinal ou aviso prévio e nas quais só a perícia do condutor ou a sorte da ocasião evitam o acidente. Outras ainda em que nada ou ninguém consegue antecipar ou evitar um desfecho menos desejável.
Há caminhos bem assinalados, cheios de placas que identificam os locais de passagem ou os da direcção em que vamos ou desejamos seguir, outros, ao contrário, que parecem plantados num deserto e levar a lugar nenhum. Nuns e noutros, quase sempre cabe a quem os percorre decidir se segue as indicações ou se quer arrepiar caminho. Sim, porque mesmo no deserto há indicações. O universo está cheio de estrelas-guia.
Por fim, há os caminhos que se atalham e outros que se fazem obstinada, serena, irracional ou conscientemente até ao fim. E o melhor da vida talvez seja tudo isto ao mesmo tempo. A capacidade de decidir o que está ao nosso alcance e a humildade de aceitar que a vida raramente corre como a planeamos. E o mesmo acontece nas viagens.
- Leo...
- Sim...
- Não te vais enganar a dizer essa palavra?...
- Claro que não!
- Olha, já viste? Estão todos aqui. É tão bonito, não é? Terem vindo até tão longe, a esta praia paradisíaca, só para estar connosco hoje e partilhar este momento.
- Sim...
- Gosto de te ouvir dizer esse Sim, sobretudo quando sorris assim.
- Hmmm...
- Olha, o Muxas já lá vem. Está lindo com aquele laço cor-de-rosa que a Mariana lhe pôs ao pescoço!
- Não achas que ele preferia que fosse azul?
- Oh... mas se fosse azul não combinava com o meu vestido...
- Tens razão, estava a brincar. E tu estás tão linda! E assim contrastas com o azul do mar e esta areia branca tão fina...
- Oh, vá, deixa-te disso, que ainda me comovo e estrago a pintura... olha, o Muxas já se está a aproximar com as alianças...
- Lindo menino... e olha o ar dele, de quem sabe que tem o nosso futuro entre os dentes...
- Oh... mas o que é que ele está a fazer?...
- Muxas! Não, não é por aí, vem cá!
- Muxas, vem cá! Aqui, meu grande matreiro!
- Muxas! Muxas! Não estás s ouvir o dono?
-Leo, ele vai fugir! Ele vai fugir com as nossas alianças!
- Muxas! Nem te atrevas! Volta aqui! Vais ficar sem fiambre um mês! Se te apanho meu grandessíssimo rafeiro!
- Leo, deixa, já não o apanhas... deixa-o o ir... o futuro já está escrito... nas estrelas...
Um livro, um romance, uma obra ficcionada onde os autores criam e caracterizam os cenários e os personagens que vão sendo confrontados com histórias que pautam o quotidiano do cidadão, com a realidade das famílias, quando se reencontram em casa, ao fim do dia.
A vida própria é lhes dada através da rádio e através de um blogue. Primeiro um diálogo a dois, depois, a interacção com os ouvintes, os comentários, o desenrolar das situações. Os ouvintes transformam-se assim em co-autores em tempo real.
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