A Espuma dos Dias

histórias para escrever uma história

Francisco José Oliveira e Margarida Brito

2009-07-31 00:00:00

E foram felizes para sempre

E foram felizes para sempre
Imagem ClipArt FIM

As histórias de vida são como uma estrada em constante construção. Por vezes feitas de rectas, onde a paisagem se repete sem sobressalto e onde podemos simplesmente aproveitar a viagem e desfrutar do caminho. Por vezes com curvas apertadas, que subitamente surgem no trajecto, sem sinal ou aviso prévio e nas quais só a perícia do condutor ou a sorte da ocasião evitam o acidente. Outras ainda em que nada ou ninguém consegue antecipar ou evitar um desfecho menos desejável.

Há caminhos bem assinalados, cheios de placas que identificam os locais de passagem ou os da direcção em que vamos ou desejamos seguir, outros, ao contrário, que parecem plantados num deserto e levar a lugar nenhum. Nuns e noutros, quase sempre cabe a quem os percorre decidir se segue as indicações ou se quer arrepiar caminho. Sim, porque mesmo no deserto há indicações. O universo está cheio de estrelas-guia.

Por fim, há os caminhos que se atalham e outros que se fazem obstinada, serena, irracional ou conscientemente até ao fim. E o melhor da vida talvez seja tudo isto ao mesmo tempo. A capacidade de decidir o que está ao nosso alcance e a humildade de aceitar que a vida raramente corre como a planeamos. E o mesmo acontece nas viagens.

- Leo...

- Sim...

- Não te vais enganar a dizer essa palavra?...

- Claro que não!

- Olha, já viste? Estão todos aqui. É tão bonito, não é? Terem vindo até tão longe, a esta praia paradisíaca, só para estar connosco hoje e partilhar este momento.

- Sim...

- Gosto de te ouvir dizer esse Sim, sobretudo quando sorris assim.

- Hmmm...

- Olha, o Muxas já lá vem. Está lindo com aquele laço cor-de-rosa que a Mariana lhe pôs ao pescoço!

- Não achas que ele preferia que fosse azul?

- Oh... mas se fosse azul não combinava com o meu vestido...

- Tens razão, estava a brincar. E tu estás tão linda! E assim contrastas com o azul do mar e esta areia branca tão fina...

- Oh, vá, deixa-te disso, que ainda me comovo e estrago a pintura... olha, o Muxas já se está a aproximar com as alianças...

- Lindo menino... e olha o ar dele, de quem sabe que tem o nosso futuro entre os dentes...

- Oh... mas o que é que ele está a fazer?...

- Muxas! Não, não é por aí, vem cá!

- Muxas, vem cá! Aqui, meu grande matreiro!

- Muxas! Muxas! Não estás s ouvir o dono?

-Leo, ele vai fugir! Ele vai fugir com as nossas alianças!

- Muxas! Nem te atrevas! Volta aqui! Vais ficar sem fiambre um mês! Se te apanho meu grandessíssimo rafeiro!

- Leo, deixa, já não o apanhas... deixa-o o ir... o futuro já está escrito... nas estrelas...



por : Final
Tags : Vera,Leo,historia

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2009-07-24 00:00:00

O destino não deixa nada ao acaso

O destino não deixa nada ao acaso
Imagem ClipArt Outra vez, Vera?...

 

Seria talvez bom que não existissem verdades absolutas. Mas existem. Na vida há realmente coisas que são inalteráveis, que não dependem da nossa vontade ou sequer do nosso empenho. São o que são e nada mais há a fazer, a decidir ou a alterar. Duvidam? Pois bem, então aqui vai uma delas: o passado não se apaga. Incontornável, não é?

Durante muito tempo, Vera fugiu de si. De uma história que sendo a sua preferiu ignorar primeiro, esconder depois, e em fim rejeitar. No fundo, nem ela mesma sabia bem por que razão o tinha feito. Para além do facto de se ter sentido em pequena o patinho feio das vizinhas, que lhe chamavam a "Vera do Desaparecido" - que era o apelido do seu pai, que no caso assentava como uma luva no facto de a ter abandonado ainda se fazia aos poucos gente na barriga da sua mãe- nada mais havia de grandioso que o justificasse. É que, fora isso, Vera fora uma criança como tantas outras, nem sempre amada, mas também não propriamente odiada, que crescera entre as dificuldades da vida e os empenhos da progenitora, para que nada do que era essencial lhe faltasse.

Cresceu entre os campos, a seara, o sol e o girassol. Fez-se menina, fez-se mulher e talvez dos muitos silêncios intercalados das brincadeiras com a sua melhor amiga, Vera construiu da vida um cenário de quimera em que alguém só vinga quando se sente vingado. Talvez por isso, mais do que por a vida lhe ter roubado um pai para lhe ser madrasta, um dia partiu do seu sul, deixou para trás o seu sol e entregou-se ao Deus da Guerra, semeando tempestades.

Não tivesse o destino pregado uma partida, talvez ainda andasse pela vida perdida, encontrando aqui e além justificações que lhe permitissem continuar um enredo para o qual não tinha personagens e, menos ainda, um final feliz.

Naquele dia tudo mudou.  Num momento de rara lucidez, a voz da sua mãe resgatou-a para a realidade. A amnésia terminava e com ela Vera acordava do sono profundo a que conscientemente devotara a sua vida.  Bastaram horas para reencontrar tudo aquilo de que se tinha perdido. Como se o tempo tivesse parado num momento que já não recordava ter existido, Vera descobriu que aquela que por defesa construira, fugira agora para não mais voltar. Disse-lhe adeus, e deixou-a partir. Em paz.

Nessa noite dormiu no seu quarto, na sua cama de ferro e colcha de retalhos que a mãe, com uma ternura que a filha lhe desconhecia, conservara, na esperança de que um dia talvez ela ali regressasse, com vontade de descansar.

O passado não se apaga mas, assim como aquela manta de retalhos que cobria a sua cama, costura-se, remenda-se, readapta-se e reconstrói-se à medida um presente possível. 

Vera não necessitava já de ser outra. Mas foi precisa uma amnésia para redescobrir aquela que na realidade era. O resto, foi apenas um pequeno empurrão do destino.

Dois dias depois, as três amigas regressavam a Lisboa. Ruça sem medo do cinto do tio, que ficara a saber o tinha levado para um lugar de onde não há regresso. Vera sem ressentimentos da mãe, por ter percebido que a vida não se constrói só de sucessos e que para tudo há uma explicação, desde que o queiramos aceitar e a desejemos descobrir. Mariana com a grata certeza de missão cumprida.

Os dias passaram até se vestirem de mês. O Verão instalara-se de armas e bagagens. Por decisão médica Vera ainda não regressara ao trabalho. Apesar de não ter deixado sequelas, a sua recente mas prolongada amnésia tinha deixado vestígios que requeriam mais algum tempo de pousio. Além disso, Vera olhava agora para o que a esperava no regresso com mais apreensão do que tentação. Haveria muito para ali arrumar...  Mais arrumada andava agora a sua vida, as suas prioridades e os seus amores. Namorado à vista? Não, nem queria.  A única coisa que por estes dias planeava era a sua viagem. A tão desejada viagem, há tantos anos adiada. Um destino a que apenas o destino vinha há anos trocando as voltas.

- E pode uma alma atrever-se nessa cidade sem um grande amor? - era a pergunta que menos virgula mais perplexidade se impunha a quem a ouvia.

- Claro que sim! Concluía Vera sorridente e convicta do que dizia.

As malas estavam há muito feitas. As horas sobejamente contadas. O tempo jogava a seu favor.

Mariana sugerira-lhe que apanhasse um táxi, mas Vera recusou. Nem tudo muda... ora aqui está mais uma verdade TEIMOSAMENTE incontornável!

Agora o inesperado trânsito fazia-a desesperar. Arrependida, olhava o semáforo ao fundo da avenida e suspirava. Embora estivesse muito a tempo de não perder o seu voo, Vera sentia-se mais próxima de realizar o seu sonho se antecipasse a sua chegada ao aeroporto um bom tempo antes de iniciar a sua viagem. Mas a avenida não se importava com os seus desejos e anseios, e menos ainda os outros condutores, que pareciam agarrados ao asfalto...

Verde... laranja... vermelho... a cadência do atraso... mais uns metros... nova paragem.

Verde... laranja...  E um súbito estrondo!

Não, não podia ser verdade... Não outra vez! Não desta vez!

 

 

 



por : Vera
Tags : historia,Vera

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2009-07-17 00:00:00

Tarot, votos e destino

Tarot, votos e destino
Imagem ClipArt Está tudo escrito... 

Leo caiu das nuvens, ao sentir-se rodeado por aquele pequeno mas ruidoso bando de folgazões, que o abraçavam tão efusivamente. Mal podia acreditar que, quando tomou a decisão de, pela primeira vez na vida, passar a véspera de Santo António em Lisboa, se haveria de deparar com cinco amigos do peito que com ele tinham atravessado todo o percurso de estudantes de liceu, na maioria das vezes até parceiros de turma.

 

Sabia que todos os anos se juntavam para rememorar velhos tempos, mas Leo jamais comparecera à chamada, talvez para não ser confrontado com situações que, embora lembradas alegremente pelos outros, o faziam mergulhar nas águas turvas da saudade.

 

Só que nessa noite não tinha como escapar. O que lhe havia de acontecer! Ele, que havia jurado fugir para o meio da multidão, logo havia de ser surpreendido pelos amigalhaços. E nem sequer podia furtar-se às exigências que lhe faziam, de se lhes juntar: não havia desculpa possível.

Verdade que a contrariedade também não era muita. O entusiasmo da busca da solidão estava a desvanecer-se, ao mesmo tempo que entendeu ser um capricho incontornável do destino tê-los juntado naquelas circunstâncias.

Resolveram começar ali mesmo, pelo Bairro Alto. Ainda que não fossem particularmente fãs do cheiro das sardinhas, o melhor mesmo era juntarem-se ao povo todo e esquecer o aroma, mergulhando numas canecas de sangria.

O barulho era ensurdecedor. A música nascia de cada pedra da rua, escorria de cada parede, atirava-se com valentia de cada goteira dos telhados. Os transeuntes eram mais que muitos. Parecia uma Babel. E os mais variados idiomas misturavam-se numa algaraviada sem sentido.

O grupo de amigos cedo ficou com dificuldades em fazer-se entender. Todos queriam falar ao mesmo tempo, todos queriam fazer perguntas e dar notícias a Leo, que continuava com dificuldade em acreditar em como aqueles cinco, tão diferentes mas com tão profundos laços de amizade, lhe tinham caído na rifa. E que recordações dos belos tempos de liceu! Leo olhou-os um por um, como que a saborear o que a memória lhe ia oferecendo parcimoniosamente.

O curioso é que não se lembrava dos nomes, mas as alcunhas vieram-lhe de imediato à mente.

A Estrelinha era a mais pequena - a "cambuta", como lhe chamavam na língua maioritária dos luandinos. Com ela tinha havido um pequeno affaire, que começara e terminara numa farra de Carnaval que se prolongou pela manhã do dia seguinte e em que dançaram infatigavelmente música após música, muito agarrados, até terem adormecido nos braços um do outro em plena ilha de Luanda.

O Galinha parecia negro, de tão moreno, característica que lhe conferia um encanto muito especial e de que sabia tirar partido junto do público feminino. Fora talvez o seu melhor amigo daqueles tempos, em que assaltavam com rara mestria os gabinetes dos professores, para lhes furtarem o enunciado dos pontos - como então se chamavam os testes.

A Manaísa era uma destravada, pedindo meças aos rapazes nas tropelias que empreendiam. Fora ela, aliás, a cabecilha da aventura que conduzira a terem virado de rodas para o ar o carro do Carapau - alcunha dada ao professor de Português, cuja popularidade deixava muito a desejar, conforme se comprova.

A Memiúda, ao contrário, era de uma docilidade extrema. Sobressaía pelo tamanho dos "músculos peitorais", eufemismo designativo das generosas protuberâncias que assomavam por entre os decotes atrevidos que adornavam os sonhos dos colegas e que faziam morrer de inveja algumas colegas menos dotadas sob o ponto de vista... "intelectual".

Finalmente, o Xerife era dono de uma imaginação insaciável. Nunca ninguém sabia se os episódios de que se gabava eram verdadeiros ou não, para além de ter todos os dias uma anedota nova de que ele próprio se ria a bandeiras despregadas sempre que a repetia, como se fosse a primeira vez que a ouvia.

A confusão parecia definitivamente instalada, até que Estrelinha se empertigou e gritou: "Oh malta! Porque é que não vamos para minha casa! Lá ao menos podemos falar e tenho uma coisa para vos mostrar!" O entusiasmo com que todos acolheram a proposta foi elucidativo.

Instalados em pufes ao redor de uma mesinha redonda e baixa, Leo acabou por se recostar no colo de Estrelinha, como se as duas dúzias de anos transcorridas desde aquela noite de Carnaval tivessem sido ontem. A verdade é que a dona de casa não mostrou qualquer surpresa. Tudo muito natural. Como cheia de naturalidade tinha sido a juventude de todos em Luanda.

"Então venha daí essa surpresa!" - disparou Xerife, mortinho que estava por mais uma boa história. E era surpresa mesmo. Estrelinha tinha-se especializado em cartas de tarô, o que arrancou um bocejo de enfado a Leo, que não era nada dado nem a questões religiosas nem a quaisquer esoterismos ou similares.

Por isso foi o último a ser questionado, o que ainda mais o contrariou porque estava a preparar-se para dormitar no colo de Estrelinha. Mas ficou logo bem desperto quando as cartas começaram por dizer que, numa vida anterior, tinha sido capataz numa roça de cacau no Brasil, acrescentando pormenores que o encheram da mais profunda perplexidade. E, por fim, as cartas prenunciavam a triste notícia de uma morte próxima.

Não. Era demais. Leo levantou-se, pôs as mãos nos bolsos das calças e começou a vaguear pela sala como um urso perseguido por um enxame de abelhas. Tudo aquilo era, mais do estranho, simplesmente inexplicável. É que, sempre que podia, fosse no gozo de férias fosse por imperativos profissionais, Leo rumava com frequência ao Brasil, onde lhe acontecia sistematicamente correrem-lhe grossas lágrimas pela face assim que pisava o solo da outra margem do rio-Atlântico, como lhe chamava e onde de imediato ganhava a pronúncia local, ao mesmo tempo que lhe vinham à memória passagens inteiras de livros de Jorge Amado - o seu autor preferido, cuja vasta obra relia vezes sem conta. Por outro lado, a roça de cacau fazia lembrar-lhe o chocolate, em que era incontornavelmente viciado e que tinha estado presente em todos os momentos da sua vida. Claro que continuou sem acreditar em nada daquilo, mas não conseguiu afastar a preocupação do anúncio de morte próxima.

"Bem, e se fôssemos todos de férias este ano?" Era a voz de Memíuda que, com a sua proverbial sensibilidade, quebrou assim o gelo do constrangimento que se tinha instalado.

Voltou a animação e pareceu que se tinham juntado meia dúzia de gralhas agitadas no mesmo poleiro. "Calma!" - impôs Estrelinha. "Isto tem de ter regras. Proponho o seguinte: cada um escreve num papel o destino que prefere e, como estamos em tempo de eleições e num regime democrático, ganha o destino mais escolhido em escrutínio directo, universal e secreto!" Perante a concordância bem disposta de todos, deu-se início ao acto solene, cujo resultado foi o seguinte: Eslovénia, 1 voto; Turquia, 1 voto; Açores, 1 voto; Argentina, 1 voto; Brasil, 2 votos. Estava encontrado o destino vencedor, que, embora sem maioria absoluta, conseguiu acabar por ser aprovado por unanimidade e aclamação na assembleia daquela república.

O que nenhum deles podia prever era as consequências daquela decisão.

 

 

 

 



por : Leo
Tags : historia,Leo

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espuma dos diasUm livro, um romance, uma obra ficcionada onde os autores criam e caracterizam os cenários e os personagens que vão sendo confrontados com histórias que pautam o quotidiano do cidadão, com a realidade das famílias, quando se reencontram em casa, ao fim do dia.

A vida própria é lhes dada através da rádio e através de um blogue. Primeiro um diálogo a dois, depois, a interacção com os ouvintes, os comentários, o desenrolar das situações. Os ouvintes transformam-se assim em co-autores em tempo real.

 

 

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