Segunda, 1 de Setembro de 2014
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Comunidades

Irene Maria F. Blayer, Lélia Pereira Nunes

2011-04-09 14:18:57

Senhor dos Passos pelas ruas de Florianópolis *** Lélia Pereira Nunes


Senhor dos Passos pelas ruas de Florianópolis


                                              

Sábado, dia 9 de abril quando a noite abraçar a Ilha de Santa Catarina e o vento de Outono varrer de mansinho as ruas da Velha Desterro a imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos mais uma vez sairá em procissão. Vou caminhar junto, reverenciando um ritual que há 245 anos se realiza na Florianópolis.
No tempo da Quaresma a Ilha se veste de roxo, identificando não apenas o tempo litúrgico, mas principalmente as tradições religiosas que marcam profundamente a nossa comunidade insular e que mais fala diretamente a alma do florianopolitano.
É uma das maiores festas de fé e de religiosidade popular de Santa Catarina e considerada um dos símbolos da cidade de Florianópolis, tanto quanto a nossa Ponte Hercílio Luz que com seus, braços de ferro, pênsil, nos une ao continente desde 1926. Uma manifestação cultural tombada pelo Conselho Estadual de Cultura como Patrimônio Cultural Imaterial de Santa Catarina.
. Procissão do Senhor Jesus dos Passos de Florianópolis pouco mudou em seus 245 anos de realização sob a organização da Irmandade do Senhor Jesus dos Passos. A chegada da imagem do Senhor dos Passos em Desterro em 1764 motivou a fundação da confraria “Irmandade do Senhor Jesus dos Passos” no dia 1º de janeiro de 1765 que teve no quadro dos fundadores o madeirense Padre Marcelino de Sousa e Abreu e os açorianos Tomás Francisco da Costa, Manuel de Sousa da Silva, Manuel de Medeiros e Sousa e Manuel Vieira Maciel.
No livro de Atas da Irmandade há o registro minucioso da primeira procissão realizada um ano depois da chegada da veneranda imagem Senhor dos Passos, com rituais e símbolos que perpassaram gerações e hoje são percebidos na sua preparação e celebração apresentando quatro cerimônias importantes: a Lavação da Imagem do Senhor Jesus dos Passos, três dias antes da procissão; a Missa e a Procissão do Carregador; a Transladação das Imagens e a Procissão do Encontro.
A Lavação da Imagem é feita por crianças “inocentes” – menores de seis anos. A água da lavação é distribuída entre pessoas devotas que acreditam no seu poder milagroso. Uma crença observada também em outros lugares como São José, Tubarão, Jaguaruna, Laguna, Imbituba e Imaruí, cidades do litoral catarinense e com raízes vincadamente açorianas. Na pequena cidade de Imaruí, por exemplo, a imagem é lavada com litros e litros de vinho tinto. Este vinho usado na lavação é engarrafado e vendido aos fiéis como “Vinho do Senhor dos Passos”.
A transladação no sábado à noite é emocionante sob o brilho intenso das tochas e milhares de velas que iluminam todo o caminho. Uma poderosa manifestação da fé e devoção com comoventes testemunhos de fiéis pagando promessas. Um olhar compungido daquela gente a depositar todas as suas angustias ao pé da imagem de um Cristo flagelado e ao mesmo tempo com um olhar doce, paternal.
Mas a procissão pra valer mesmo acontece no domingo à tarde. Parece que toda Ilha se movimenta para ver o Senhor dos Passos passar e uma verdadeira multidão deságua na Praça XV de Novembro à espera de Sua saída da Catedral. No trajeto da procissão flores, toalhas de rendas, mantas penduradas nas janelas e balcões, arcos ornados com bandeiras e bandeirolas roxas marcam o caminho reconstituindo os passos do Calvário, numa representação da Via Crucis. A presença maciça do povo em grande corso, dos membros da Irmanadade, do Arcebispo, do Clero, das autoridades e das bandas musicais reflete a força da secular tradição. É como se a não participação na procissão fosse uma desconsideração ao Senhor dos Passos e a própria cidade.
Olhando aquele mar de gente em constante movimento como as ondas do mar, entendo o que move aquela massa humana em torno de uma crença popular tão forte e de intensos significados que a faz una em toda Ilha de Santa Catarina. A procissão de Passos é um ícone de Florianópolis. É ali que a nossa gente se encontra para celebrar o encontro do povo com suas raízes e sua história cultural.

Florianópolis,abril de 2011
Ilha de Santa Catarina

Crédito Imagens: Rubens Flores
por: Lélia Pereira Nunes e Irene Maria Blayer

Este blogue é  sobre a perspectiva da distância, o olhar de quem vive os Açores radicado na América do Norte, na Europa, no Brasil, ou em qualquer outra região. É escrito por personalidades de referência das nossas comunidades com ligações intensas ao arquipélago dos Açores (25.02.2007).

Irene Maria F. Blayer - Nasceu em São Jorge, Azores, e vive no Canadá.  
She holds a Ph.D. in Romance Linguistics and is a Full Professor at Brock University, Canada -Doutorada em linguística, é Professora Catedrática na Univ. Brock. Neste espaço procura-se a colaboração de colegas e amigos cujos textos, depoimentos, e outros -em Inglês, Português, Francês, ou Castelhano- sejam vozes que testemunhem a  nossa 'narrativa' diaspórica, ou se remetam a uma pluralidade de encontros onde se enquadra um universo  que  contempla uma íntima proximidade e cumplicidade com o nosso imaginário cultural e identitário.

Lélia Pereira da Silva Nunes - Brasil
Nasceu em Tubarão, vive em Florianópolis, Ilha de Santa Catarina. Socióloga, Professora da Universidade Federal de Santa Catarina, aposentada, investigadora do Patrimônio Cultural Imaterial (experts/UNESCO,Mercosul), escritora e, sobretudo, uma apaixonada pelos Açores. Este é um espaço, sem limites nem fronteiras, aberto ao diálogo plural sobre as nossas comunidades. Um espaço que, aproximando geografias, reflete mundivivências a partir do "olhar distante e olhar de casa," alicerçado no vínculo afetivo e intelectual com os Açores. Vozes açorianas, onde quer que vivam, espalhadas pelo mundo e, aqui reunidas num grande abraço fraterno, se fazem ouvir. Azorean descent.-- Born in Tubarão(SC) and  lives in Florianopolis, Santa Catarina Island,Brasil. She holds postgraduate degreees  in Public Administration, and is an Associate Professor at Federal University of Santa Catarina.

 

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