PURPURINA
com Rui Estêvão

Cannes 2008

Os repórteres Tiago Alves (Antena 1), José Paulo Alcobia (Antena 3) e o crítico João Lopes acompanham o maior festival de cinema do mundo

Tiago Alves, José Paulo Alcobia , João Lopes

2008-05-25 15:05:54

A palma de Ouro fica em casa

Palmarés da 61ª edição do festival de cinema de Cannes premeia cinema francês, italiano e latino.

O filme "Entre Les Murs" (Entre Paredes) rodado por Laurent Cantet durante um ano, numa sala de aula de um liceu, recebeu a palma de ouro. Lição de democracia, obra universal sobre os problemas do ensino, considerou o júri presidido por Sean Penn que quebrou um longo jejum do cinema francês - desde "Sob o Sol de Satanás", de Maurice Pialat, que um filme francês não ganhava o maior prémio do festival de Cannes. A festa, fez-se com a presenca dos alunos que participaram nesta filmagem. No palmarés, destaca-se a presença plena do cinema italiano e de actores latinos nas categorias de intepretação.

Foto de familia: a turma de Laurent Cantet recebe a Palma de Ouro

PALMA DE OURO - "Entre Les Murs" (Entre Paredes) de Laurent Cantet

GRANDE PRÉMIO - "Gomorra" (Camorra) de Matteo Garrone

PREMIO ESPECIAL DO 61º FESTIVAL - Catherine Deneuve por "Un Conte de Noëll" (Um Conto de Natal), de Arnaud Desplechin e Clint Eastwood por The Exchange (A Troca)

REALIZAÇÃO - "Üç Maymun" (Três Macacos) de Nuri Bilge Ceylan

INTERPRETAÇÃO MASCULINA - Benicio Del Toro por "Che"

INTERPRETAÇÃO FEMININA - Sandra Corvelone por "Linha de Passe"

ARGUMENTO - Jean-Pierre e Luc Dardenne por "Le Silence de Lorna" (O Silêncio de Lorna)

PRÉMIO DO JURI - "Il Divo" de Paolo Sorrentino


Comentário de João lopes

Reportagem de Tiago Alves


 

 

 

por: João Lopes
Tags: Palmarés,João Lopes,José Paulo Alcobia,Tiago Alves,Palma de Ouro,Cannes

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2008-05-25 12:05:02

Estados Unidos vs. França: a luta dominante entre duas cinematografias de referência

Eastwood ou Desplechin; Soderbergh ou Garrel; Gray ou Cantet
Estados Unidos vs. França: a luta dominante entre duas cinematografias de referência


Dos vinte e dois filmes presentes na competição oficial pela palma de ouro, seis deles são equitativamente divididos por cineastas da França e dos Estados Unidos, ou seja, quase 30% do total.. Duas cinematografias que mantêm, mesmo considerando a ascensão do peso da Argentina e Itália neste contexto, um certo domínio cultural do cinema produzido, no velho e no novo mundo.
Cannes reflecte essa realidade, e na luta pela palma de ouro é indissociável a discussão de qual a estética que melhor sintetiza o nosso tempo. Não que os filmes se separem entre norte-americanos e franceses (o que seria simplista e incorrecto), mas no que tem a ver com uma postura mais ligada ao “marketing” e às celebridades versus a exigência da continuidade de um cinema de autor.
por: Jose Alcobia

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2008-05-25 11:05:18

Plano quase final

Uma composição de David Lynch, um poster para a história do festival, um mistério desvendado.

Exista um mistério no poster da 61ª edição do festival de Cannes: quem era a mulher que David Lynch tinha fotografado? Poucos dias antes do desfecho, o festival revelou que o realizador fixou a imagem de Anouck Margueritte, uma performer e dançarina do Crazy Horse de Paris, um cabaret celebrizado pelos espectáculos baseados na coreografia do corpo a partir da sombra e da luz.

A imagem captada no exterior do palácio do festival, exibindo a mítica escadaria vermelha e o cartaz na fachada do edifício, continua actual: Cannes comecou debaixo de chuva - alguém exclamou: festival molhado, festival abençoado! - e termina com um dia tempestuoso.

Plano final

A performer Anouck Marguerite desvenda o olhar que Lynch tapou com uma fita de celulóide

por: Tiago Alves
Tags: Tiago Alves,Cannes

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2008-05-25 10:05:34

Elogio dos actores
(... e das actrizes)

No novo mundo digital do cinema, será que ainda há espaço para os actores? A resposta é: sim!
Elogio dos actores(... e das actrizes)

Vemos, lá ao fundo, a angústia suspensa na pose do jovem actor Devon Bostick. Mas a energia do momento pende toda toda para esta mulher misteriosa, tão escondida e tão ambiguamente exposta: os olhos de Arsinee Khanjian são, inevitávelmente, o ponto de fuga que nos atrai para a imagem.

E uma imagem do filme ADORATION, de Atom Egoyan, é que pode resumir uma certeza paradoxal que este Festival de Cannes nos deixa. Assim, por um lado, a proliferação de filmes rodados em digital permite-nos perceber que as bases tecnológicas da produção cinematográfica estão a mudar de forma acelerada e irreversível; por outro lado, nada disso confirma o pânico de há alguns anos segundo o qual os actores (... e as actrizes) se tornariam "dispensáveis" face aos novos seres de corpo imaterial, fabricados por computador.

Podemos mesmo dizer que Cannes nos confrontou com alguns espantosos trabalhos de composição, desses a partir dos quais um filme pode organizar-se — e encontrar o seu modo de ser e comunicar.

Deixo três exemplos, a meu ver marcantes:

Benicio Del Toro: o seu Che Guevara, no CHE, de Steven Soderbergh, é um caso extraordinário de calculada colisão entre a iconografia mitológica e a revelação humana (porventura demasiado humana) de uma paradoxal verdade.

Angelina Jolie: sem ofensa para os mais pessimistas, mas há muito tempo que me parece evidente que a sua imagem "tablóide" é uma mera estupidez mediática, sendo ela uma espantosa actriz — Clint Eastwood dirige-a em THE EXCHANGE numa personagem de fria coexistência entre a luminosidade do Bem e a densidade do Mal (não tem nada de arriscado dizer, desde já, que ela será uma das cinco nomeadas ao próximo Óscar de melhor actriz).

Arta Dobroshi: nome desconhecido do Kosovo, surgiu no novo filme dos irmãos Dardenne (LE SILENCE DE LORNA) como símbolo exemplar de um realismo à flor da pele, convulsivo e comovente.

Isto sem esquecermos: Louis Garrrel e Laura Smet, em LA FRONTIERE DE L'AUBE (Philippe Garrel, Franca); Maria Onetto, em LA MUJER SIN CABEZA (Lucrecia Martel, Argentina); e, claro, o espantoso efeito coral dos actores de UN CONTE DE NOEL (Arnaud Desplechin, Franca), incluíndo Mathieu Amalric, Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni.

Em resumo: vale a pena continuar a ir ao cinema para ver os actores. E as actrizes.

por: João Lopes

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2008-05-25 05:48:00

Elogio dos latinos

O ressurgir do cinema político italiano, os sinais da emergência do south american way no contexto do cinema enquanto fenómeno global.

Benicio Del Toro intepretando Che Guevara

Quatro filmes sul americanos em competição - os brasileiros "Cegueira", de Fernando Meirelles e "Linha de Passe", de Walter Salles, os argentinos "A mulher sem Cabeça", de Lucrecia Martel, e "Leonera", de Pablo Trapero; a presença simbólica de Maradona através de um documentário filmado por Emir Kusturica; a antestreia do filme espanhol de Woody Allen rodado em Barcelona, com Penélope Cruz no elenco; e, finalmente, o maior biopic sobre a figura mítica de Ernesto Guevara, o "Che" do norte-americano Steven Soderbergh, com um elenco ibero-americano: o porto riquenho Benicio Del Toro, a colombiana Catalina Sandrino Moreno, o brasileiro Rodrigo Santoro, o cubano Jorge Perurrogia, o mexicano Demian Bichir, o português Joaquim de Almeida. Espanha marca presença na maioria destas produções e o Brasil começa a afirmar-se neste contexto. Cannes, que costuma estar à frente do tempo, dimensiona esta nova realidade no contexto da produção global. Em termos meramente inconográficos não deixa de ser relevante que a acção do novo Indiana Jones, exibido pela primeira vez neste festival so south american way, aconteca algures no interior da Amazónia.

Este Festival de Cannes confirmou ainda a revitalização do cinema italiano, sobretudo do cinema político, através dos dois filmes exibidos na competição: "Gomorra", de Matteo Garrone, filme denúncia sobre as ramificações da mafia napolita, e "Il Divo", biopic de Paulo Sorrentino centrado em Giulio Andreotti, uma sátira delirante sobre os meandros da corrupção no poder político e judicial italiano. O cinema italiano acerta contas com os poderes (políticos, económicos...) mais obscuros do país e dessa forma tenta recuperar o fulgor de uma certa tradição perdida.

"Il Divo", satira de de Paolo Sorrentino

por: Tiago Alves
Tags: Filme Sul-Americano,Tiago Alves,Selecção Oficial,Cannes

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Os filmes preferidos pelo nosso painel de críticos

A TROCA

A TURMA

UN CONTE DE NOËL

(Um Conto de Natal)

ÜÇ MAYMUN

(Os Três Macacos)

CHE

 

        
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