Portugal 3.0
com Álvaro Costa

Antena3 BACKSTAGE

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ANTENA 3


2009-04-08 21:08:57

Antena 3 @ Poéticas do Rock em Portugal: dia 3


E pelo segundo dia consecutivo, o tiro de partida para mais uma série de sessões sobre as Poéticas do Rock em Portugal foi dado ao som dos Xutos & Pontapés - desta vez, para o último dia de colóquio, o mote foi o álbum "Circo de Feras". Para olhar para o álbum dos Xutos, editado em 1987, e sobre a "experiência da juventude no Cavaquismo", Luís Trindade contou a história de David, "um punk solitário do liceu de Queluz", que usava dois blusões de ganga com as capas dos discos dos Xutos desenhadas nas costas e que lhe deu a conhecer a banda, mas para quem a capa do "Circo de Feras" - por representar uma passagem ao "mainstream" - "já não mereceu um blusão". Foi esse o ponto de partida para uma análise que expôs as diferenças entre os Xutos de "Cerco" (um disco mais cru e literal) e os Xutos de "Circo de Feras" (mais subtil e denso, revelador de uma nova maturidade) e da passagem da banda de "Contentores" de um período alternativo, onde representavam a revolta da juventude portuguesa, para um período mais comercial, que os viu renderem-se, afinal, à "vida normal".

Depois dos Xutos, a conversa virou-se para o teatro - mais precisamente para três espectáculos que têm no rock um protagonista ou um fio condutor: "Lilás", de Jon Fosse, "Rock 'N'Roll", de Tom Stoppard, e "Fucking and Shopping", de Mark Ravenhill. Três peças que, segundo Rui Pina Coelho, olham de forma diferente para o rock (seja como forma de acalmar conflitos, seja como guia da História, ou como mero objecto de consumo) e que mostram a própria evolução do rock e da forma como o encaramos (o rock é, hoje, "tanto uma celebração da liberdade como uma mera indústria").

Ainda pela manhã, houve tempo para olhar para a relação do rock com Deus - nomeadamente através da música de Tiago Guillul ("menos Padre Borga e mais António Variações", como disse Luís Filipe Cristóvão) - e com a lírica clássica grega - afinal, como sugeriu André Simões (mais habituado a concertos onde "está tudo sentadinho", como confessou), o rock, como "a raposa, muda a pelagem mas não os costumes" e os temas que canta são, no fundo, os mesmos que se cantavam na Grécia Antiga ou na Idade Média.

Pela tarde, falou-se dos Gift, do hip-hop português, dos Belle Chase Hotal e, mais uma vez, de Rui Reininho.

A fechar os três dias de colóquio, a segunda mesa-redonda reuniu Tiago Guillul, o encenador João Garcia Miguel (que trabalhou com os Xutos), o realizador Manuel Mozos e o editor Luís Futre (da Groovie Records), a quem se juntou, mais tarde, Manuel João Vieira, para falar do "Rock nas Artes". Talvez por se confessar pouco dado à auto-análise, Guillul foi o mais provocador ("não posso imaginar coisa menos rock n'roll do que um músico a falar de rock n'roll numa universidade"), mas também Luís Futre arrancou alguns olhares de espanto à plateia ao lembrar que "o rock português nasceu em 1955" e não nos anos 80 - o que levou a curioso diálogo: depois de Futre lembrar que o pai do rock português não é Rui Veloso, um elemento da plateia sugeriu, citando um autor brasileiro, que "o Diabo é o pai do rock", ao que Manuel João Vieira acrescentou "o Diabo é o Vítor Gomes" (o vocalista dos Gatos Negros, mítica banda dos anos 60).

Manuel João Vieira foi outro dos protagonistas da sessão, não só pela sua chegada atabalhoada (atrasado, sentou-se no meio do público e, quando ocupou o seu lugar na mesa, não deixou de perguntar "sobre o que é esta mesa redonda?"), mas sobretudo por lembrar que, na sua experiência de músico e artista-plástico, "arte e pop são como óleo e água: não se misturam". Foi dele também a questão ficou no ar, em tom de conclusão: porque é que "nós estamos sempre a pedir às artes que apareça qualquer coisa nova em vez de pedirmos às artes qualquer coisa boa"?

E foi assim, em tom de provocação, que terminaram estes três dias em que o rock voltou à universidade.

por: Ricardo Sérgio

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2009-04-07 20:46:57

Antena 3 @ Poéticas do Rock em Portugal: dia 2


Apesar de algum atraso e da pouca afluência de público, o segundo dia do colóquio Poéticas do Rock em Portugal começou ao som dos Xutos & Pontapés (ao contrário do que estava previsto no programa, a comunicação de Michka Assayas ficou para a segunda sessão da manhã).

Pedro Félix (que tem seguido de perto o percurso da banda de "Contentores") propôs-se olhar de uma forma antropológica e etnográfica para as letras das canções dos Xutos. Destacando os versos de "Remar, Remar" (para muitos, o melhor exemplo da "poesia" da banda), Félix falou dos problemas de articulação (entre letra e música) e de expressão do rock e conclui que uma canção rock é mais do que a soma de letra e de música (há que contar com as emoções e com as leituras que cada ouvinte faz da letra e da música).

Depois de acalorada discussão (ou não fosse o tema a banda que agora festeja o 30º aniversário), o jornalista francês Michka Assayas trouxe à cena a criação de personagens no rock, contando a história de três vultos da música contemporânea: Robert Zimmerman, Paul Hewson e Marshall Matters. Ou seja, Bob Dylan, Bono e Eminem - três exemplos de jovens com adolescências desinteressantes que, através da busca por uma identidade própria e da "auto-fabricação" de uma outra personagem (mais do que um pseudónimo), criaram três das maiores celebridades do rock. De caminho, falou-se ainda de outras "personagens", como Iggy Pop, David Bowie e Mick Jagger.

A manhã acabou, não ao som, mas com o som das palavras escritas por Rui Reininho, numa análise das "Líricas Come On & Anas" do vocalista dos GNR e dos seus mais frequentes jogos fonéticos.

Pela tarde, antes ainda da primeira mesa-redonda do colóquio, discutiu-se o rock no Portugal dos anos 80 (falou-se de Mão Morta, de Pop Dell'Arte, da Sétima Legião e do Rock Rendez-Vous).

Finalmente, casa quase cheia para ouvir Fernando Ribeiro e JP Simões (os únicos dos cinco convidados que "voltaram à Universidade") falar das influências literárias das suas composições e da forma como encaram as suas letras. Por entre referências aos escritores JRR Tolkien, Edgar Allan Poe ou Oscar Wilde e aos "poetas-rock" Jim Morrisson (o escritor de "poemas-rock" por excelência, para Fernando Ribeiro) e Nick Cave (que, recordou o vocalista dos Moonspell, analisou e dissecou, numa conferência, uma canção de.... Kylie Minogue), os músicos deixaram bem presente que encaram as canções como algo mais do que só literatura ou só música, mas uma "terceira coisa" (palavras de JP Simões) e as letras das canções como "poesia activa" (disse-o Fernando Ribeiro).

Quarta-feira, o colóquio despede-se com mais uma mesa-redonda - desta vez, o tema é o "Rock nas Artes", com a presença de Tiago Guillul ou Manuel João Vieira, entre outros. Antes, ao longo do dia, vai falar-se de punk, de hip-hop, dos Gift, dos Belle Chase Hotel e, mais uma vez, dos Xutos e de Rui Reininho.

por: Ricardo Sérgio

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2009-04-07 17:04:36

Antena 3 @ Poéticas do Rock em Portugal: dia 1

Arrancou ontem (segunda-feira) o colóquio Poéticas do Rock em Portugal .09 e a Antena 3 esteve na plateia do Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A abrir o colóquio, o jornalista e estudioso norte-americano Greil Marcus abordou a poesia de Bob Dylan, numa perspectiva pessoal - desde a primeira vez que leu um poema, ou melhor, a letra de uma canção de Dylan na revista "Glamour" (em Junho de 1966) até à sua descoberta, quarenta anos depois, da cidade natal do músico, da sua escola secundária e do seu professor de Inglês.

Neste primeiro dia, falou-se ainda de Fados (numa perspectiva generalista, onde coube a música d'A Naifa, dos Trovante ou dos Mler Ife Dada e até de Vítor Gomes e os Gatos Negros) e da questão da "língua materna" no rock português - eterna questão que já Miguel Esteves Cardoso abordava em 1981 e que ainda hoje divide músicos, fãs e críticos e que, apesar de tudo, levanta questões mais profundas do que o cantar em inglês ou em português.

Durante a tarde (depois de se olhar para a censura e para a obra de José Cid e de Carlos Tê), a última sessão do dia abordou a obra poética de Jorge Palma, a evolução das letras de Sérgio Godinho e a revolução linguística dos Mler Ife Dada.

O segundo dia arranca com a conferência do jornalista francês Michka Assayas, autor da entrevista que resultou no livro "Bono por Bono". Terça-feira vai ainda falar-se da música e das letras de Rui Reininho, Xutos, Mão Morta ou Pop Dell'Arte. É também amanhã que arrancam as mesas-redondas: na primeira, falar-se-á de "Rock e Literatura", com a presença de JP Simões, Fernando Ribeiro e Adolfo Luxúria Canibal, entre outros.

por: Ricardo Sérgio

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